É conhecido que o dia-a-dia organizacional envolve fatores que levam as pessoas a um ritmo desenfreado e desgastante. E nesse caminho, a constante tomada de decisões pode envolver mais do que competência e experiência do profissional. Há momentos em que a emoção chega a influenciar as soluções que vão interferir a vida da empresa. Foi para falar sobre a presença da emoção e da razão como ferramentas gerenciais que o RH.com.br convidou o consultor e palestrante Eugenio Mussak.
RH.COM.BR -É possível utilizar, ao mesmo tempo, a razão e a emoção como ferramentas gerenciais?
Eugenio Mussak - Razão e emoção são duas faces da mesma moeda. A mente do ser humano depende, para seu equilíbrio, da relação harmônica entre essas duas partes. A utilização das duas como ferramenta gerencial, na verdade, constitui-se em uma pequena metáfora, em que se chama a atenção ao fato de que as técnicas de administração modernas estão especialmente voltadas para a gestão de pessoas, que buscam se relacionar com o mundo como pessoas e não apenas como profissionais. Já se disse que administrar é fazer coisas através de pessoas. Diante disso, a necessidade de entendimento de que as pessoas são mobilizadas não apenas pela lógica, ganha corpo. A questão da motivação, por exemplo, é totalmente relevante e deve levar em consideração as razões lógicas e as razões emocionais que motivam as pessoas.
RH - Na prática, como estas ferramentas estão presentes no cotidiano das empresas?
Mussak - O dia-a-dia é formado por tarefas, metas, rotinas, procedimentos variados. Todos eles devem ser resolvidos ou administrados através de dados, premissas, índices, resultados, porém não podemos esquecer que eles também vêm acompanhados de ideais, sonhos, medos, ansiedades. Portanto, cada definição organizacional não pode esquecer da existência de um forte componente humano. A alocação das pessoas em funções às quais são mais adaptadas, a administração das idiossincrasias dentro da equipe, a vinculação do esforço com o alcance das metas pretendidas são exemplos de ações que apresentam um componente lógico e outro emocional.
RH - O ser humano possui sentimentos e isto é inegável. O que acontece em empresas que consideram seus colaboradores apenas como um elemento mecânico?
Mussak - As pessoas que são tratadas apenas como partes mecânicas de uma grande engrenagem que é a empresa, tendem a não colocar toda a energia em seu trabalho. A administração de processos, típica da era tayloriana não encontra mais espaço em um mundo tão competitivo como o que estamos vivendo. Atualmente, as pessoas estão exigindo respeito e dignidade. Os chefes estão sendo substituídos por líderes. Os funcionários estão virando colaboradores. Todos são parceiros que têm diferentes funções dentro da empresa, mas que devem ter objetivos comuns, caso contrário teremos um imenso desperdício de energia humana.
RH - Até que ponto deve-se deixar que a emoção interfira nas decisões gerenciais?
Mussak - Decisões não podem ser emocionais. A parte do cérebro que permite a manifestação das emoções é um péssimo tomador de decisões, pois ele só sabe diferenciar o agradável do desagradável, e não o bom do mau. Em outras palavras, decisões emocionais podem privilegiar o que é agradável em vez de o que é bom. Decisões nem sempre são agradáveis, pois implicam em renúncias. Há uma frase meio poética, e bastante válida que diz o seguinte: "o ideal é decidir racionalmente e viver emocionalmente, e não o contrário". Quando tomamos decisões emocionais, com muita freqüência temos que viver racionalmente na tentativa de corrigir os defeitos da decisão.
RH - É possível saber o momento certo para se usar a emoção e a razão no trabalho?
Mussak - Uma das características mais importantes da maturidade é reconhecer a hora e o local. Sabemos que nada na vida é proibido, a não ser que seja contra a lei. No entanto, isso não significa que absolutamente tudo possa ser feito. Vai depender da opção pelo melhor momento e pelo melhor local, que não são definidos por legislação alguma, mas sim pelo senso comum. Fala-se muito em timing, como sendo uma percepção adequada do uso do tempo e atualmente, adiciona-se o conceito de placing, que tem o mesmo sentido, só que com relação a local, ambiente físico. O uso da participação adequada da razão e da emoção para cada situação da vida está ligado com essa percepção, o que requer maturidade, mas insisto que tudo isso pode ser ensinado, através de um programa inteligente de educação corporativa.
RH - Qual o profissional que tem mais chance de sobreviver ao mercado: aquele que usa a razão ou um outro, que recorre à emoção?
Mussak - O que tem mais chance é o que sabe dosar adequadamente essas duas facetas de nossa personalidade. Nos processos decisórios, por exemplo, devemos privilegiar a razão, a lógica; mas momentos de comunicação e de aprendizagem, por outro lado, devemos abrir espaço para as emoções, pois é através delas que nos comunicamos e que aprendemos melhor.
Por Patrícia Bispo para o RH.com.br
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